O Banco Central confirmou que o Drex vai abandonar o Hyperledger Besu — a blockchain permissionada escolhida em 2023 como base técnica do piloto — em sua próxima fase. Depois de duas fases de teste e seis soluções de privacidade que não resolveram o dilema entre sigilo bancário e escalabilidade, a nova prioridade do projeto é bem menos futurista e bem mais urgente para o mercado de crédito: a reconciliação de gravames. Para fintechs, bancos e financeiras, entender essa mudança de rota é mais importante do que acompanhar a discussão sobre blockchain pública.
Por que o Hyperledger Besu saiu de cena
Em entrevista ao Valor Econômico, o coordenador do Drex no Banco Central, Fabio Araujo, explicou que as soluções de privacidade testadas na rede “são boas”, mas “aparentemente não são suficientes” para preservar programabilidade e composabilidade, segundo reportagem do Seu Dinheiro. A auditora do BC Clarissa Souza afirmou que o plano agora é migrar para uma rede proprietária do próprio Banco Central, adequada às necessidades da autarquia, em vez de manter o Hyperledger Besu.
O que é reconciliação de gravames
A nova prioridade do Drex é uma infraestrutura centralizada — sem blockchain pública — para verificar, de forma integrada entre bancos, financeiras e cartórios, se um ativo como veículo ou imóvel já está vinculado como garantia em outra operação de crédito, segundo o Mix Vale. Hoje esse processo é manual, lento e sujeito a erros e duplicidades — um gargalo real na concessão de crédito garantido no Brasil. A entrega está prevista para o segundo semestre de 2026, já em curso, com uso inicialmente restrito a bancos, cartórios e corretoras, não ao público final.
LIFT Day confirmou a virada
Em 31 de março de 2026, o Banco Central reuniu no LIFT Day, em Brasília, os resultados de três verticais do laboratório de inovação LIFT/Fenasbac: tokenização de ativos do mundo real, Open Finance com ESG, e Pix, Drex, embedded finance e IA. Foi nesse evento que a mudança de rota do Drex — do experimentalismo com blockchain para um problema operacional concreto do crédito — ficou formalmente confirmada dentro do arcabouço mais amplo de inovação do BC.
Enquanto o BC recua, o mercado privado avança
O recuo do Drex na tokenização pública não significa que o mercado brasileiro parou. O volume de ativos do mundo real (RWA) tokenizados no país cresceu 2.249% em 12 meses, atingindo R$ 2,876 bilhões em janeiro de 2026, segundo a DeFin Insights. Enquanto o Banco Central concentra o Drex em resolver um problema operacional específico, exchanges, fintechs e o próprio mercado de capitais seguem avançando em tokenização por conta própria — um sinal de que a cautela regulatória não está travando o apetite do setor privado.
O que muda para fintechs de crédito
- Fintechs de crédito com garantia (veículo, consórcio, imóvel) devem acompanhar como a integração com a nova infraestrutura de gravames vai funcionar operacionalmente
- O acesso inicial fica restrito a bancos, cartórios e corretoras — fintechs menores devem monitorar quando e como a integração se abre para outros players
- A previsão de entrega no segundo semestre de 2026 ainda depende de confirmação oficial do BC — trate como cronograma anunciado, não garantido
- Projetos de tokenização própria continuam viáveis no curto prazo, já que o Drex não está competindo nesse espaço por ora
A lição por trás da mudança de rota do Drex é simples: depois de dois anos tentando resolver privacidade e escalabilidade em uma blockchain pública, o Banco Central escolheu atacar primeiro o problema que mais trava o crédito no Brasil — e esse problema não precisava de blockchain para ser resolvido. Para o mercado financeiro, a pergunta relevante deixou de ser “quando o Drex vai usar blockchain de verdade” e passou a ser “como preparar minha operação para a reconciliação de gravames”.
